23.11.23

vertigem de (a)mar.

me vejo nas estrelas, me vejo no mar

as constelações me indicam as direções do universo, 

mas até onde meu coração me leva?

corpo imerso, a maré se eleva 

e me arrasta cada vez mais para perto do oceano

as águas são traiçoeiras, assim como os seus olhos

olhos escuros estrelados que deixam meu corpo balançando, assim como as ondas

é perigoso se deixar levar, mas apesar disso, ainda quero mergulhar

me afogo, retorno a superfície, sinto vertigem de amar.

2.6.23

são paulo.

graças a arte, estou aprendendo a gostar de são paulo. eu amo tudo o que compõe a arte paulista, aprecio a arquitetura, aprecio os pixos e grafites nos muros e paredes. tudo isso fica lindo de manhã, quando o sol bate e faz os prédios se destacarem com uma luz dourada ou cor de rosa, dependendo do dia. vejo muitas árvores, apesar de não ser uma vegetação ampla como em outros lugares, já que sempre dizem que aqui não tem árvores. é verdade que poderia ter mais, mas elas deram lugar para estradas onde passam milhares de veículos ao dia. algumas ruas são escassas de árvores, então encontrá-las traz alguma satisfação para os olhos e um pouco de paz ao espírito. 

o problema da grande são paulo, assim como em todos os outros lugares do mundo, é o capitalismo. esse excesso de veículos que não param por um segundo deixam o trânsito extremamente lento, e o que deveria ser prático e confortável torna-se um estresse. as pessoas são frias e estressadas, porque nada parece colaborar para chegar a tempo no trabalho, comparecer ao exame na hora marcada, ou chegar em casa depois de um dia difícil. as grandes indústrias são barulhentas e a maioria não se preocupa com o meio ambiente. o ar é pesado em são paulo. por isso eu aprecio tanto as árvores que encontro pelo caminho. a rotina é pesada. não se sabe o que esperar do trânsito ou das pessoas, tudo é sempre muito instável. 

quem foi o gênio que inventou são paulo? preciso bater palmas para o inventor dessa estética predominante nas cidades daqui, porque sinto muitas coisas com esse visual. a constante ansiedade no estômago. a cultura romântica do vício em trabalho. a sensação de estar sendo explorada de forma desumana. o conforto em ver os lugares pixados e ver que não sou a única emburrada com o sistema. a maravilha dos grafites coloridos nos prédios e das rimas nos espaços públicos. 

você me esmaga, mas eu ainda consigo te amar.

30.3.23

consciência do eu.

tenho me sentido bem esquisita, como um vazio que precisa ser preenchido. terminei o ensino médio há alguns meses e lembro que eu tinha muitas preocupações sobre o futuro. finalizei o ano muito feliz com as pessoas novas que eu conheci, e peguei muito gosto por conhecer pessoas e fazer novas conexões. isso é ótimo porque o pós-pandemia me trouxe de volta o medo de situações sociais, mas isso foi superado.

não tem sido tão fácil, mas nada tão difícil também. penso que tudo está sendo como deve ser. mas como eu disse, sinto que falta algo, e estou tentando resgatar todos os dias a melhor versão de mim mesma. sinto que perdi a disciplina e responsabilidade comigo mesma. então, decidi me organizar a partir de listas. gosto muito de fazer listas. dessa vez, fiz uma lista de coisas para fazer que me trazem benefícios.

1. praticar meditação. 5 a 10 minutos por dia.

2. mexer com frequência no google arts & culture, para conhecer obras de arte e seus autores. 15 minutos por dia.

3. ler livros. uma hora por dia.

4. visitar blogs e apoiar as pessoas comuns que eu gosto de acompanhar. 15 minutos por dia. 

5. estudar desenho, principalmente anatomia e gestual. meia hora por dia no mínimo, mas pode ser mais.

defini um limite de tempo porque não consigo administrar meu tempo, mas o cronômetro pode ser meu aliado nisso. talvez na prática esses limites não sejam suficientes, mas o fato é: não posso ficar presa muito tempo em uma coisa só. acredito que isso adoece a mente sem nem mesmo eu perceber. por isso farei essas coisas mesmo que por pouco tempo, porque elas me beneficiam de algum modo, me relembram quem eu sou e o que gosto de fazer, o que quero fazer daqui pra frente e o que quero melhorar. 

vou dar uma ênfase em meditação, o item da lista que menos vou passar tempo fazendo. 

comecei a meditar quando tinha 15 anos. é muito chatinho aprender a meditar. meditações guiadas são um ótimo começo. não sei o que me inspirou a continuar. meditação tem diversos benefícios, mas eu achava tedioso porque sentia que estava fazendo errado, não era bem da forma que eu imaginava. a instrução era: inspirar, segurar, expirar, focar apenas na respiração. consciente da minha respiração, eu já nem sabia como respirar direito. depois surgiam muitos pensamentos, um após o outro. me perguntei se eu desliguei mesmo o fogão. lembrei de um acontecimento aleatório. e então, minha mente já tinha voado pra longe. 

no começo, eu não conseguia perceber tão bem quais os benefícios da meditação, mas agora percebo que só de estar prestando atenção nos meus próprios pensamentos, já estou meditando em mim mesma. diziam que não tem problema sair do foco, e é verdade, porque é sobre olhar para si mesmo. agora eu enxergo a meditação como um momento de entender meu lugar no mundo, entender (mais) quem eu sou, como está minha mente e onde eu quero chegar.

tem um livro que eu gosto muito chamado "a extraordinária garota chamada estrela". foi ele que me introduziu ao hábito da leitura. gosto dos detalhes de onde ele se passa. há um tempo, soube que ele ganhou uma adaptação para filme da disney, e não tenho vontade de assistir porque tenho certeza que tudo é muito diferente do que eu montei na minha cabeça sobre o livro. ele fez parte da minha infância e pré-adolescência, eu sempre estava relendo, e o que me chamou a atenção na primeira vez foi o título. 

estrela, significado do meu nome. sempre fui obcecada com tudo que tem estrela. o nome do blog é estrelas em palavras. ele moldou uma parte da minha personalidade e me fez gostar muito de cactos, e meditação também. acho que essa é uma das minhas partes favoritas do livro:


“Então”, eu disse, “quando o encantamento começa?” 

Estávamos sentados um do lado do outro, olhando as montanhas. 

“Começa com o nascimento da Terra.” Os olhos dela estavam fechados. Seu rosto dourado no pôr do sol. “Ele nunca para. Ele é sempre. Apenas é.” 

“Então o que fazemos?” 

Ela sorriu. “Esse é o segredo.” Suas mãos em concha repousaram em seu colo. “Não fazemos nada. Ou o mais perto de nada que conseguirmos.” O rosto dela se virou devagar para mim, embora os olhos permanecessem fechados. “Você já fez nada?” 

Eu ri. “Minha mãe acha que eu faço isso o tempo inteiro.” 

“Não conte a ela que eu disse isso, mas sua mãe está enganada.” Ela ficou de costas para o sol. “É realmente difícil não fazer nada por completo. Mesmo apenas sentando aqui, desse jeito, nosso corpo está se agitando, nossa mente está conversando. Há toda uma agitação acontecendo dentro de nós.”

“Isso é ruim?”, perguntei. 

“É ruim se queremos saber o que está acontecendo fora de nós mesmos.” 

“Não temos olhos e ouvidos para isso?” 

Ela assentiu. “É o suficiente na maior parte do tempo. Mas às vezes eles atrapalham. A Terra está falando conosco, mas não podemos ouvi-la por conta de todo o barulho que nossos sentidos estão fazendo. Às vezes precisamos apagá-los, desligar nossos sentidos. Então – talvez – a Terra consiga nos tocar. O universo falará conosco. As estrelas sussurrarão.” 

O sol brilhava laranja agora, recortando os cumes de cor púrpura das montanhas. 

“Então como eu me torno esse nada?” 

“Não tenho certeza”, ela disse. “Não existe uma resposta para isso. É preciso encontrar sua própria maneira. Às vezes eu tento me anular. Imagino uma grande borracha rosa e retangular, e ela se mexendo para a frente e para trás, indo e vindo, e ela começa nos dedos dos meus pés, para a frente e para trás, indo e vindo, e então acontece – puf! – meus dedos desaparecem. E depois meus pés. E aí meus tornozelos. Mas essa é a parte fácil. A parte difícil é apagar meus sentidos – meus olhos, minhas orelhas, meu nariz, minha língua. E por último meu cérebro. Meus pensamentos, minhas memórias, todas as vozes dentro da minha cabeça. Essa é a parte mais difícil, apagar os pensamentos.” Ela riu discretamente. “Minha cachola. E então, se eu tiver feito um bom trabalho, sou apagada. Vou embora. Não resta nada. E o mundo fica livre para fluir para mim como água em uma vasilha vazia. 

“E?”, perguntei. 

“E... eu vejo. Eu ouço, mas não com meus olhos e ouvidos. Não estou mais fora do meu mundo, nem dentro dele, na verdade. E sabe do que mais? Não existe mais diferença entre mim e o universo. A fronteira se foi. Eu sou ele e ele sou eu. Sou uma pedra, um espinho de cactos. Sou a chuva.” Ela sorriu de modo sonhador. “É disso que eu mais gosto, de ser a chuva.” 


durante a meditação, fico prestando atenção no mundo externo além do interno. na última vez que eu meditei, minha rua estava um caos e isso não me atrapalhou. pelo contrário. comecei a refletir que as pessoas tem suas próprias essências enquanto seres humanos. qualquer um pode chegar na minha vida para cumprir algum papel e me fazer perceber algo novo sobre mim, mesmo com a possibilidade de não ser uma experiência muito boa também. já conheci muita gente insuportável, e pensei que essas pessoas têm uma consciência de si próprias também. eu posso ser a insuportável em outra perspectiva. 

basicamente, meditar é como ficar pensando na vida antes de dormir. antes de dormir, é quando você fica mais consciente do que nunca sobre a vida. mas na meditação você não vai dormir logo em seguida e esquecer de tudo o que você pensou, mas sim voltar pra realidade com outros olhos, outras ambições. 

mas também é bom meditar para dormir, é um método ótimo! ajuda muito a melhorar qualidade de sono e produtividade no dia seguinte.

minha essência permanece a mesma, e quando eu escrevo vejo que nada mudou como parece ter mudado tanto. minhas visões podem ser outras agora, mas acho interessante como continuo sempre buscando uma melhora graças às coisas que eu amo fazer. sempre me sinto insatisfeita, meio deslocada, mas isso não é de todo ruim. 

as vezes não há nada para ser mudado no externo. a resposta pode já estar dentro de nós. é só respirar fundo, observar e absorver.